Educação

A cada dia, 4 alunos da rede estadual são transferidos para a municipal

Joyce Noronha

Em pleno mês de outubro, já na reta final do ano letivo, trocar de escola não é uma tarefa das mais fáceis. Mas essa é a realidade de parte dos alunos que estão enfrentando uma greve na rede estadual de ensino, movimento que foi deflagrado em 5 de setembro.

Depois de um mês de paralisação das aulas – nem todas as escolas de Santa Maria estão em greve, mas, segundo levantamento do Diário feito em 5 de outubro, 22 colégios estavam com paralisação total ou parcial –, o vendedor João Carlos da Silva, 54 anos, conversou com a sua mulher, a cuidadora de idosos Luciane Borges, 42 anos, sobre trocar a filha de escola.

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A pequena Letícia Borges da Silva, 10 anos, está no 4º ano do Ensino Fundamental e, segundo o pai, desde a pré-escola estudava no mesmo colégio. João Carlos e Luciane sabem que a troca não é fácil para a menina, mas eles estavam mais preocupados com o andamento do ano letivo e o rendimento escolar da filha. Assim, decidiram fazer a transferência.

Há cerca de duas semanas, Letícia começou a frequentar a Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro de mesmo nome, e diz que está gostando dos novos colegas e professores, mas não esconde a saudade da antiga escola. Entretanto, ela diz que os pais conversaram bastante e ela entendeu o motivo da troca de colégio.

E não é apenas Letícia que é nova na escola. De acordo com a vice-diretora da Perpétuo Socorro, Eliane Côrrea de Moraes, até o dia 16 de outubro, a instituição recebeu cerca de 12 novos estudantes entre as turmas do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Eliane não confirma que todos esses alunos são provenientes da rede estadual de ensino, mas acredita que a maior parte das transferências ocorreu por conta da greve dos professores do Estado.

PEDIDOS DE TRANSFERÊNCIAS
Os pedidos de transferência de escolas estaduais para municipais são feitos por meio da Central de Matrículas (Rua Serafim Valandro, 369, ao lado da escola Cícero Barreto). A coordenadora da Educação Infantil da Central de Matrículas, Carmen Hautrive, diz que poucos pedidos de troca são entre instituições estaduais, de uma grevista para uma que não esteja em greve.

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Carmen salienta que a Central tem recebido solicitações de transferência desde que a greve foi deflagrada e que o número aumentou para cerca de quatro pedidos por dia quando a paralisação completou um mês, em 5 de outubro. 

A distribuição de vagas ocorre por zoneamento, o que significa que a criança será transferida para um colégio próximo de sua residência. A Central de Matrículas divide a cidade em seis zonas: Camobi, Centro, Leste, Oeste, Norte e Sul.

Segundo Carmen, semanalmente, as escolas municipais passam informações sobre o número de vagas disponíveis por série. No último levantamento feito pelo órgão, até o meio-dia de ontem, a rede municipal ofertava 588 vagas entre o 1º e o 9º anos do Ensino Fundamental. 

O maior número de vagas está na região sul da cidade, que disponibiliza 137 lugares entre 10 escolas municipais. Em seguida, aparece a Região Oeste, com 130 vagas também entre 10 colégios. Já a zona com menos vagas é o Centro, com sete vagas distribuídas entre duas escolas (veja quadro).

Já entre as séries, o maior número de vagas é para o 9º ano, que, na soma entre todas as regiões da cidade, disponibiliza 124 lugares. O menor número de vagas é para o 3º ano, com 30 disponíveis na rede municipal em todas as regiões. 


CPERS E 8ª CRE AVALIAM AS TROCAS DE COLÉGIOS
Com a preocupação dos pais e o aumento do número de transferências da escola estadual para a municipal, o coordenador da 8ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), José Luis Eggres, diz que o órgão faz um estudo de vagas disponíveis nos colégios que não estão em greve. O objetivo do coordenador é apresentar aos pais e responsáveis a possibilidade de troca de escolas dentro da própria rede.

– Este é um movimento natural. Com a greve, os pais querem que os filhos tenham aula e é um direito dos responsáveis pedir a transferência dos filhos. Nós não fazemos esta transferência, é trabalho da Central de Matrículas, mas, pelo menos, queremos que os pais saibam que há vagas na rede e que o aluno pode seguir estudando no Estado – comenta Eggres.

O coordenador diz que o foco deste estudo são as vagas do 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio, que são séries de conclusão das modalidades de ensino. A 8ª CRE atende 23 municípios da região centro do Estado.

A CATEGORIA
Para o diretor do 2º Núcleo do Cpers/Sindicato, Rafael Torres, as transferências de escolas é o objetivo do governo para enfraquecer o movimento da categoria. Ele diz entender os motivos dos pais fazerem as solicitações, e que compreende como legítima a atitude dos responsáveis de alunos. Contudo, ele afirma que a greve tem preocupação com a escola pública estadual como um todo, não apenas de uma instituição ou de um aluno.

– É nossa causa coletiva e muito maior. Ao meu ver, trocar o aluno de escola neste ponto do ano letivo é apenas uma solução paliativa e particular. Não questionamos, mas estamos aqui para resolver o todo e não apenas uma pequena parcela dos problemas da educação pública – avalia Torres.

O 2º núcleo representa os professores estaduais de 18 municípios da Região Centro.

O QUE DIZEM AS ESCOLAS COM MAIOR EVASÃO...
Como os pedidos de transferência passam pela Central de Matrículas, o órgão tem ideia de quais são as escolas estaduais de Santa Maria que mais estão perdendo alunos com essas solicitações. Entre os nomes citados, estão o Instituto de Educação Olavo Bilac e a Escola Cícero Barreto.

 SANTA MARIA, RS, BRASIL. 12/09/2017.O Diário foi às cinco maiores escolas de Santa Maria para verificar como está a situação durante o período de greve. Três escolas estão com greve parcial, sendo que uma está com a maior parte dos professores trabalhando e duas estão em greve total. Em todos os colégios, o movimento grevista é por tempo indeterminado.Na foto: Olavo BilacFOTO: GABRIEL HAESBAERT / NEWCO DSM
Foto: Gabriel Haesbaert / NewCO DSM

A vice-diretora geral do Bilac, Iria Balzan, mostrou-se um tanto surpresa pelo instituto estar na lista, pois conta que pais e responsáveis têm demonstrado apoio aos professores e aos motivos da greve. Ela cita que a categoria está parada por uma causa justa e nobre.

– Estamos na batalha por uma educação melhor para todos. Queremos a valorização dos professores e que os alunos recebam do Estado tudo o que é de direito deles. Sabemos que a situação é crítica e agradecemos aos pais bilaquianos que compreendem o nosso lado – diz Iria.

Sobre as transferências, especificamente, a professora comenta que a escola não pode impedir a saída dos alunos que assim o desejarem e diz que, mesmo com a greve, o colégio é procurado por responsáveis de crianças que querem inscrever seus filhos no Bilac. 

E A RECUPERAÇÃO?
No Cícero Barreto, a diretora, Vânia Cunha, também disse não saber que a escola estava com evasão grande. Contudo, ela pede a compreensão dos pais para aguardarem o andamento da greve, pois preocupa-se com a recuperação das aulas.

– Os alunos que forem trocados de escola agora, vão entrar em uma instituição que está com o andamento do ano letivo normal. Como esses alunos vão recuperar o conteúdo? Quando a greve for encerrada, vamos montar um calendário de recuperação e esses alunos vão ver o conteúdo da forma correta – opina Vânia.

Entretanto, a diretora diz que a escola não pode impedir a transferência de estudantes.

OS COLÉGIOS QUE MAIS RECEBERAM ALUNOS TRANSFERIDOS

Assim como a Central de Matrículas informa as escolas estaduais com maior evasão durante a greve, o órgão também pontua as instituições municipais que mais receberam alunos provenientes do Estado. O colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é umas delas. De acordo com a diretora, Daniela de Oliveira, a instituição atende cerca de 420 alunos e busca manter o número de estudantes por turma, de 25 crianças em cada sala do 1º ao 5º ano, e de 30 do 6º ao 9º ano. Mas, a diretora salienta que, se a escola tem vagas, não se recusa a receber novos estudantes. 

Daniela diz que, durante todo o ano, a instituição recebe alunos transferidos de outros colégios. Porém, neste ano, a procura foi muito maior. Desde que a greve da rede estadual foi deflagrada, a Perpétuo Socorro recebeu 12 alunos novos, até o dia 16 de outubro. Sobre o acompanhamento do conteúdo, a diretora diz que cada professor avalia a situação individual dos alunos e passa materiais para ajudar a criança ou o adolescente a recuperar as matérias que têm mais dificuldade.

 SANTA MARIA, RS, BRASIL. 16/10/2017.Escola Municipal Perpétuo Socorro para conversar com a direção sobre o recebimento de alunos da rede estadual durante o período de greve. FOTO: GABRIEL HAESBAERT / NEWCO DSM
Foto: Gabriel Haesbaert / NewCO DSM

A outra escola que aparece na lista das que mais receberam estudantes, conforme a Central de Matrículas, é a Pinheiro Machado. O diretor, Gesiel dos Santos, comenta que, desde o início da greve até o dia 20 de outubro, o colégio recebeu 18 novos alunos. 

O professor diz que a metodologia e a concepção pedagógica da instituição são um pouco diferentes dos demais colégios e, por isso, acredita que a adaptação dos estudantes seja mais fácil. Contudo, ele garante que, se o aluno precisar de apoio, os professores ficam à disposição para auxiliar as crianças e os adolescentes.

ENSINO MÉDIO

A Central de Matrículas cuida das transferências entre escolas estaduais e entre redes públicas de ensino (municipal e estadual). Porém, o Município não tem aulas do Ensino Médio, que é ofertado pelos colégios estaduais ou particulares. Assim, a Central não tem números sobre as transferências de alunos do 1º ao 3º do Ensino Médio.

A coordenadora da Educação Infantil da Central, Carmen Hautrive, explica que apenas as escolas estaduais podem dizer quantos alunos desta modalidade de ensino pediram transferência desde o início da greve.

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